Blog Cão Rafeiro

Como os cães rafeiros podem contribuir para o conhecimento da origem da domesticação do cão?

Uma população de cães pode ser dividida em diferentes categorias1 de acordo com o seu grau de socialização/contato com o ser humano, quão livremente podem se movimentar e quaisquer diferenças genéticas que tenham de outras populações caninas devido à separação a longo prazo:

1) Cães com dono;

2) Cães comunitários;

3) Cães sem dono (stray dogs, street dogs, village dogs).

Segundo o geneticista canino da Cornell University, Adam Boyko, os cães consistem de dois grupos especializados: os cães de raça pura (purebreed dogs) e um grupo mais populoso de cães, os rafeiros (crossbreed dogs). Este último vive uma vida livre, entretanto numa relação de comensalismo com o ser humano e seu ambiente, de forma a obter comida e abrigo. Nosso foco está neste último, da terceira categoria, os chamados “free-ranging dogs”, ou cães rafeiros.

Numa pesquisa desenvolvida por Adam Boyko e sua equipe2, concluiu-se que os cães rafeiros cujos ancestrais eram nativos de uma área geográfica (Village Dogs) são mais diversos geneticamente e mais espalhados geograficamente que os cães de raça. E é aqui que encontramos a “cereja do bolo”. A seleção artificial, praticada pelo homem, deu origem a mais de 400 raças hoje reconhecidas mundialmente. Porém, durante a Era Vitoriana, a crescente prática de cruzamentos consanguíneos (entre indivíduos geneticamente próximos), com o objetivo de deixar as raças mais puras e com características homogéneas, levou à uma redução do pool genético, ou seja, uma redução da variedade genética dos cães de raças. Em outras palavras, os cães rafeiros que sofreram pouca seleção artificial podem, assim, refletir as origens e os movimentos dos cães ancestrais.

 Ludmilla Paixão Blaschikoff  – Aluna do mestrado de Ecologia Aplicada, a desenvolver a tese “Diversidade genética de cães ancestrais em Portugal”

1Høgåsen, H. R., Er, C., Di Nardo, A., & Dalla Villa, P. (2013). Free-roaming dog populations: A cost-benefit model for different management options, applied to Abruzzo, Italy. Preventive Veterinary Medicine112(3–4), 401–413. https://doi.org/10.1016/j.prevetmed.2013.07.010
2Shannon, L. M., Boyko, R. H., Castelhano, M., Corey, E., Hayward, J. J., McLean, C., … Boyko, A. R. (2015). Genetic structure in village dogs reveals a Central Asian domestication origin. Proceedings of the National Academy of Sciences112(44), 13639–13644. https://doi.org/10.1073/pnas.1516215112